• Andréa Rodrigues

Quando nem eu acreditava mais, realizei meu sonho de jogar na Europa


Eu sou Junior Andrade, tenho 33 anos e minha vida inteira no Brasil foi jogando desporto. Comecei aos 16 anos com o basquete na minha cidade natal. Após isso, eu conheci o handebol e me apaixonei por esse esporte. Com 17 para 18 anos essa transição foi muito rápida. Quando eu recebi um convite para ir para Belo Horizonte, que é a 700 quilômetros da minha cidade, eu larguei a faculdade por causa do handebol – estava no segundo ano de educação Física – e me mudei porque sempre foi meu sonho ser atleta. Meu grande amigo Paulo Braz me deu muito apoio em todo esse tempo em BH. Acabei jogando dois anos em Contagem, fomos campeões mineiros, joguei alguns campeonatos pela faculdade UniBH e fomos vice-campeões brasileiros em Maceió, em 2008.

Contagem (MG), primeiro clube fora de casa

E aí começou mais a minha profissionalização no handebol, sempre estava com algum convite para jogar campeonatos mineiros. Também joguei dez anos pelo Clube Duzoutros, que é de senhores aposentados em Belo Horizonte e eles criaram um time de handebol. Mas nesses dez anos eu sempre saía para representar alguma equipe por outros estados. Em 2017 e 2018, meus dois últimos anos no Brasil, joguei em Uberaba (MG) e defendi a equipe na Liga Nacional, que é uma competição que todo atleta quer jogar.

Equipe da ACEVALE/Uberaba-MG

Naquele ano de 2018 tive proposta para jogar em Portugal. Então foi uma confusão louca, porque eu estava em Belo horizonte, já tinha casa, família, amigos... Foi uma decisão muito difícil, porque precisei deixar tudo para trás. Mas quando eu recebi o convite do Ílhavo eu fiquei muito feliz, porque aos 32 anos eu já não esperava mais sair do Brasil para fazer uma coisa que eu amo e que todos os atletas sonham em jogar na Europa. Eu nunca desisti desse sonho. E quando essa oportunidade veio eu agarrei, mesmo deixando tudo para trás. Eu chorei muito. Mas sempre tive essa determinação de enfrentar as coisas mais difíceis para ser atleta. Então perdi tudo, tive que pedir demissão do meu emprego e começar uma nova caminhada.


Jogo pelo Ílhavo/Portugal

Em Ílhavo comecei a jogar apenas em dezembro por causa do tempo da transferência, embora tivesse chegado em outubro. Fiz 13 jogos oficiais pelo time e ao longo das partidas tive uma lesão no menisco e no LCA (Ligamento Cruzado Anterior). Fiz cirurgia durante as férias, pois aqui em Portugal, quando se é inscrito na Federação Portuguesa você recebe um seguro-atleta que cobre qualquer tipo de lesão. Em agosto (de 2019) fiz a cirurgia e foi a pior sensação do mundo, porque fui para o hospital em Porto, pensando em família, pensando na minha mãe... e eu estava sozinho. Quando saí do hospital eu sentia uma dor que achava que não ia conseguir suportar. Os três meses seguintes foram muito difíceis, não conseguia fazer nada sozinho. E agradeço que apareceram pessoas que me ajudaram demais: a Grace Araújo e a Greyce Santos, jogadoras brasileiras que jogavam em Ílhavo, e a Ana Seabra, selecionadora portuguesa. Ana me ajudou muito nessa minha recuperação, assim como as fisioterapeutas. A minha dedicação também foi importante.

Seis meses em trabalho de recuperação de LCA

Com seis meses de tratamento eu comecei a receber alguns convites de clubes de segunda divisão e esse da terceira, São Pedro do Sul, que foi a proposta que me encantou mais. É o primeiro ano deles na categoria sênior com um projeto muito bacana do professor Carlos Piris e eu aceitei o desafio. Isso me fez também olhar com outros olhos, pelo Carlos ser um treinador muito conhecido em Portugal, a estrutura aqui ser excepcional, muito boa. Fechei com eles o returno de 2020, onde fiz dois jogos oficiais e conseguimos a classificação para fase final e subida de divisão. Quando ia ter o classificatório veio a pandemia e ficamos esses meses todos parados. Agora já estão começando a voltar os treinos aqui. Eu estou muito feliz porque tive uma renovação em São Pedro do Sul – eles quiseram que eu ficasse para temporada 2020-2021.

Retorno aos treinamentos em São Pedro do Sul/Portugal

Acho que esse agora esse é meu momento! Aqui em Portugal estou muito feliz nesse novo clube, fazendo o que eu gosto. É uma paixão muito grande pelo desporto e fui muito bem recebido pela equipe e pelos escalões menores. É muito gratificante ver que a gente é espelho para as crianças aqui. Elas gritam seu nome, você sai do jogo e elas pedem autógrafo, foto... Essa realidade em Portugal é muito diferente do Brasil. É muito interessante: o atleta tem muito apoio, os pais apoiam desde criança. E isso segura muito a gente em Portugal, na Europa.

Equipe da Academia de Andebol de São Pedro do Sul

A estrutura é totalmente diferente. O pouco daqui é muito. É quase como nossos clubes grandes aí (no Brasil). Quadras e estruturas são muito boas e isso é o que eu sempre quis viver. Viver do handebol, fazer o que eu gosto, vibrar, gritar pelo handebol. E defender as nossas cores, mesmo não estando no Brasil, mas é um sangue brasileiro. A gente é muito diferente dos europeus e acho que eles acabam se inspirando em nós também, porque vibramos muito, conversamos muito. Isso é uma qualidade nossa. Agora eu estou nesse momento muito feliz, a minha recuperação ocorreu 100%.

Júnior Andrade, um brasileiro em Portugal

Estou muito contente mesmo de estar agregando nesse projeto, espero estar subindo de divisão daqui um mês, um mês e meio. E se acontecer já vai ser um feito histórico porque é o primeiro ano do clube, e se Deus quiser vai correr tudo bem e eu quero fazer uma história aqui. É isso que eu quero, fazer o curso de treinador, ser técnico dos escalões menores, ser atleta de São Pedro do Sul e fazer história. E é por isso que eu vim para Portugal: fazer a minha história, ser espelho para os outros, para as crianças. Quem me conhece sabe a pessoa que eu sou, o atleta que eu sou, e eu quero construir uma vida aqui.

PERFIL DO AUTOR

Júnior Andrade é atleta de handebol, joga como central e lateral. No Brasil foi campeão mineiro pelo Contagem (MG), artilheiro pelo Betim na Copa Brasil em 2010 e bicampeão goiano pelo Rio Verde (GO). Em Portugal esteve no Ílhavo por uma temporada e meia e agora transferiu-se em definitivo para a equipe de São Pedro do Sul.

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