• Andréa Rodrigues

Precisamos continuar lutando contra o preconceito

Atualizado: Jun 6

Bombom, Marcão, Bruna de Paula e Hosana Bastos falam sobre discriminação e a importância de não normalizar atitudes racistas e homofóbicas

Uma árbitra sai de quadra e ouve “essa preta filha da p***”. E ainda passa por outras duas situações de racismo dentro de clubes particulares onde estava a trabalho. Um atleta de nível internacional é chamado de “macaco” durante um jogo. Em outra ocasião, os xingamentos se tornam mais pesados e ele toma a decisão de deixar a Espanha onde jogava. Essas histórias são reais e aconteceram com a árbitra Hosana Bastos e o goleiro da Seleção Brasileira de Handebol Masculino César Bombom. Os fatos, ocorridos há alguns anos, deixaram marcas profundas neles. Os agressores saíram impunes, por isso eles ressaltam a importância de não ficarem calados. “Se não fizermos isso, a gente mascara o problema e infelizmente não vai acabar. Agora está dando todo esse ‘bafafá’ porque tem internet, tem tudo, as imagens se disseminam muito rápido e o mundo inteiro vê o racismo”, diz Bombom.


Embora o handebol seja uma modalidade em que casos como esses são poucos em relação a outros esportes, como o futebol, Hosana alerta que é preciso construir a consciência de crianças e jovens. “Muitos adultos não têm preparo para lidar com questões de preconceitos, e assim as crianças vão entendendo como está sendo passado para eles. Eu tento sempre no meio da aula fazê-los pensar nisso, fazer atividades teóricas de crítica, rodas de conversa, todas as estratégias que existirem para que uma geração nova venha com um olhar um pouco mais delicado e crítico sobre o que está acontecendo”, conta a professora de educação física Hosana.


A seguir publicamos relatos do goleiro Marcão, da armadora Bruna de Paula, do goleiro Bombom e da árbitra Hosana sobre racismo e outras formas de discriminação:


Bruna de Paula – armadora da Seleção Brasileira e do Fleury Loiret, da França.

“Racismo é uma coisa que a gente não deveria estar falando mais no tempo em que a gente vive, acho que isso é um absurdo. Mas infelizmente ainda existe em todos os lugares: no trabalho, no esporte... Então temos que continuar lutando contra isso, para que não exista mais. Infelizmente não é fácil porque é no mundo todo, mas temos que continuar com a nossa batalha para que um dia isso tudo acabe.

Comigo nunca aconteceu nada (na quadra), felizmente. Felizmente não, porque isso deveria ser o normal. Mas os negros sofrem com isso no dia a dia. Eu sou muito a favor da igualdade independentemente de raça, cor, religião...”

Hosana Bastos – árbitra nacional de handebol e professora de educação física

“Eu considero que o fato de eu ser mulher e árbitra potencializa muito o preconceito. Primeiro que as pessoas têm preconceitos velados, as pessoas que não têm coragem de expor os pensamentos preconceituosos, de levar a público um sentimento ou pensamento. ‘Vai lavar louça’ eu já ouvi centenas de vezes. Eu posso te dizer que na época que eu fazia os jogos mais decisivos e mais difíceis eu ouvia pelo menos toda a semana ‘vai lavar louça’ ou ‘essa mulherzinha, o que ela sabe’, ‘vai procurar o que fazer’, ‘vai pra casa!’. Como se a casa fosse o meu lugar, como se eu não soubesse o que estou fazendo por ser mulher. E muitas das vezes isso vinha de mulheres na arquibancada. E ver um negro numa posição superior incomoda mesmo e as pessoas estão como robôs condicionadas a verem homens, brancos e ricos em posição de comando. Se alguma coisa sair disso, parece que é uma batalha que se inicia, interna e externa.”

Cesar de Almeida, Bombom – goleiro da Seleção Brasileira e do Fenix Tolouse, da França

“Foi muito pesado. Só quem vive, sabe. Quando eu voltei a jogar na Espanha, foi um jogo muito estranho para mim. Eu disse ‘quero me concentrar, esquecer (o que tinha acontecido)’. E por casualidade a gente ganhou de um gol, a galera toda lá comemorando e eu querendo só ir embora. Naquele dia eu não desfrutei do jogo. Eu não posso ser hipócrita porque no Brasil, por mais que tenha miscigenação, a gente sabe que é um país extremamente racista. Por mais que não seja escancarado, a gente sabe o que passamos, quando se é parado pela polícia, que eu já tive caso disso. Então meio que eu já cresci sabendo lidar com isso. Superar é difícil, mas a gente meio que aprende que a culpa não é nossa, o problema está no racista, na pessoa que discrimina alguém em pleno século 21 por tom de pele, por opção sexual, por qualquer opção. Porque eu sempre falo que cada um faz o que quer da vida, que devia ser assim, que ninguém devia se preocupar. Eu estou bem mais forte psicologicamente, aprendi muito com isso. A gente aprende o quão baixo o ser humano pode chegar para, no nosso caso de atleta, tirar a concentração de alguém, menosprezar alguém.”

Marcos Paulo, o Marcão – goleiro do Pinheiros e ex-Seleção Brasileira

“Eu nunca tive problemas com esse tipo de situação de racismo (no handebol). Mas no passado, quando moleque, a gente teve briga, se ofendia... ‘seu negro do caramba, seu preto, tinha que ser preto...’ Sabe umas coisas assim? O que eu vejo do racismo é que ele vem mesmo de uma mancha que a história trouxe. Porque rebaixar os negros pela cor é muito louco. Eu confesso que eu me revolto. Sem dúvida a minha estrutura familiar contribui demais para eu saber lidar com isso, para não ter uma resposta que não seja violenta frente a uma situação dessa. Mas é o tipo de coisa que não é normal você ser conflitado dessa maneira, a gente sabe que existe. A meu ver é meio pequeno o mundinho do handebol, as torcidas pequenas, as famílias (na quadra)... Então acho que acaba não tendo tanto essa incidência (de racismo). Se fosse uma torcida grande igual é de futebol, aí sim eu acredito que a diferença seria bem gritante. Poderia sim acontecer com mais facilidade, como vira e mexe acontece (em outras modalidades).






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