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Falar, Escutar e Agir – Uma reflexão sobre Preconceito Racial

Atualizado: Jun 6

“E é preciso entender que o preto em poder de fala não é “vitimista” ou “mimizento”, ele é realista.”

Por Dayane Rocha


Desde muito nova ouvi pedidos da minha avó para nunca namorar um rapaz preto. Naquela época isso não fazia sentido para mim, eu não entendia o porquê de inúmeras vezes ela me fazer esse pedido encarecidamente.


Quando eu fui entender? Quando adolescente e já adulta é que eu percebi que ser preto na periferia me colocaria em alerta todos os dias, independentemente do local em que eu estivesse.


Eu entendi, então, que era um pedido de socorro, não de preconceito. Mas de socorro por conta de como a nossa sociedade transparece o preconceito racial, o lidar com pretos. O pedido dela era isso, para meus filhos não precisarem viver na pele qualquer tipo de exclusão social. Hoje eu sou casada com o Bruno, que é branco, mas isso foi um encontro de almas e não teve a ver com esse pedido. Eu sei que meus filhos podem nascer com a pele preta, mas para a minha avó o pedido era para tentar afastar nossos filhos de viver o preconceito.


A compreensão chega nos mostrando logo cedo que temos que lutar, que mesmo que a Lei Áurea tenha sido assinada 132 anos atrás, a igualdade não chegou junto com essa assinatura. Mas na cabeça de muitos parece que está tudo igualitário. A história do Brasil é a mesma, porém hoje com perspectivas diferentes, nomes diferentes, uma visão turva.


É interessante mostrar números para que muitos possam entender que alguma coisa não está certa. Eu os tenho bem claros em minha mente porque foi tema do meu trabalho de conclusão na universidade.


  • 70% da população mais pobre do Brasil é preta.

  • O Brasil está entre os 10 países mais desiguais do mundo e mais que a metade da população brasileira é preta.


Onde está essa maioria?

Só com esses números podemos observar que, mesmo em maioria, muitos pretos estão lutando contra preconceitos DIARIAMENTE.


O que me conforta é observar pessoas enxergando que sim, nós vivemos em um país racista e desigual, que esse racismo acontece no mundo. Se as pessoas não conseguirem entender isso, será impossível combatê-lo.


O preconceito racial é um assunto prioritário somente quando acontecem fatos inaceitáveis durante um período e isso precisa mudar. Porque aquele período para o povo preto se reflete em uma dor diária de geração em geração.


Precisa acontecer uma transformação de mentalidade, um tratamento do assunto com seriedade. E é preciso entender que o preto em poder de fala não é “vitimista” ou “mimizento”, ele é REALISTA. Que qualquer manifestação de repúdio de ações de outrem acontece na tentativa de fazer entender que “VIDAS PRETAS IMPORTAM”, que todos necessitam pensar em seus atos e falas rotineiramente.


É uma sociedade doente, são problemas graves, mas a minoria, a “branquitude”, precisa repensar e enxergar que há anos está tudo errado, que seu privilégio foi construído em cima da nossa opressão. Que os pretos devem questionar esse erro com barulho sim, na tentativa de mudança, porque NÓS ESTAMOS MORRENDO.


Eu gosto muito dessa frase que vou citar, porque transparece o que o tema “PRECONCEITO RACIAL“, vindo de pretos em fala, significa para muitos:


“É mais fácil você reprimir e rejeitar pra não ter que lidar com a verdade dos outros.“ (GRADE KILOMBA)






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