Buscar
  • Andréa Rodrigues

De olho no Parapan, Handebol em Cadeira de Rodas se prepara no CPB

Atualizado: 9 de Set de 2019

Competição feminina acontece em outubro em São Paulo e modalidade quer crescer em busca de apoio e mais praticantes

Seleção Brasileira Feminina de Handebol em Cadeira de Rodas (HCR)

A Seleção Brasileira Feminina de Handebol em Cadeira de Rodas (HCR) realizou a segunda fase de treinamento visando o Parapan da modalidade no Centro Paralímpico Brasileiro (CPB), na capital paulista. Foram três dias de preparação e 20 atletas pré-convocadas, mas duas tiveram problemas de saúde e não puderam participar. Somente 14 jogadoras farão parte da equipe que se apresenta em São Paulo no dia 19 de outubro e disputa o torneio de 20 a 23/out no mesmo local dos treinos. “O nível da Seleção está mais homogêneo, algumas atletas estão na Seleção pela primeira vez. Este é o último treinamento e pretendemos ter sucesso no Parapan” diz Samuel Macena, um dos técnicos da Seleção que vai enfrentar Panamá, Chile, Colômbia, Bolívia e Argentina no torneio.

Samuel Macena, um dos técnicos da Seleção Brasileira

A falta de participantes impede um crescimento maior do Handebol em Cadeira de Rodas. Além disso, foi preciso mudar o estatuto da Associação Brasileira de Handebol em Cadeira de Rodas (Abrhacar) para que a entidade possa inscrever projetos em busca de apoios e patrocínios que ajudem a fomentar a modalidade. A partir de outubro já deve começar a funcionar a Confederação Brasileira de Handebol Adaptado (CBHA), que vai incluir também o Handebol de Surdos e o Intelectual. Mais um passo para que a modalidade possa participar das Paralimpíadas. “Além dessa mudança, também estamos estudando um quarto sistema de classificação funcional das atletas, para unificar as classes dentro de um sistema único do IPC (Comitê Paralímpico Internacional)”, revela Gévelyn Almeida, presidente da Abrhacar e uma das técnicas da Seleção Feminina.

Gévelyn Almeida, presidente da Abrhacar

Gévelyn também é técnica do ICED, o Instituto Catarinense de Esportes para Deficientes, e este ano a equipe conquistou o título do XI Campeonato Brasileiro Feminino de Handebol Cadeiras de Rodas na categoria HCR 7, onde jogam 7 atletas. No HCR também existe a categoria 4, adaptado do Handebol de Areia (Beach). Boa parte das regras são muito próximas do handebol convencional, mas algumas diferenças significativas são: a trave tem um redutor de 40 cm na altura, não se usa cola na bola e o contato sem bola não é falta. Além disso, no 7 há uma diagonal na lateral próxima da área, em que se o jogador receber a bola antes dessa linha pode acabar infiltrando na área para chutar, mas sem colocar a mão na cadeira de rodas.

Seleção Brasileira Feminina na fase de treinamento no Centro Paralímpico em São Paulo (SP)

Dentro das categorias também há o Misto, em que apenas homens da classe 2 – o sistema vai de 0,5 a 5 de acordo com o grau da lesão – podem jogar com as mulheres. “Queremos fomentar o Misto para que mais times sejam formados. Poucas cidades possuem times, então não há onde treinar o Handebol em Cadeira de Rodas”, explica Gévelyn. Segundo dados da Abrhacar, apenas 45 jogadoras estão em atividade no País, mas mais de 380 atletas dos dois naipes já passaram pela modalidade. Muitas mulheres vieram de outras modalidades paradesportivas.


É o caso da cearense Shirlei Cátia Moraes Januário, que veio do basquete e também pratica Atletismo. “Nas segundas, quartas e sextas à tarde treino Basquete. Nas terças e quintas, Handebol. À noite vou para a academia para me fortalecer para o Atletismo. Pela manhã curso o sexto semestre de Psicologia”, conta Shirlei, que é classe 2 e joga há um ano como armadora e central. Oito anos atrás ela levou oito tiros, por ter sido testemunha de um crime. Levou dois anos para alguns movimentos voltarem, ficou paraplégica e caiu em depressão, o que só acabou quando conheceu o esporte paralímpico por indicação de uma fisioterapeuta do Hospital Sara Kubitschek. “O que me fez enfrentar o mundo foi o esporte. A cadeira de rodas não me limita de forma alguma”, diz a atleta de 29 anos, mãe de uma menina de 13 anos e vice-artilheira no Campeonato Brasileiro, com 22 gols.

Shirlei Cátia, atleta do Adesul (Fortaleza/CE)

Para Dayana Moraes Lopes, pivô no Handebol e também atleta de Basquete, a dificuldade em praticar o esporte é maior. Ela teve uma lesão cerebral por causa de um tiro que paralisou todo o lado esquerdo do corpo da atleta há dez anos. Com isso, ela precisa movimentar a cadeira e ainda trocar passes somente com a mão direita. Nada que tire sua alegria de jogar. “O esporte mudou a minha vida 100%. Eu saí da cadeira de rodas e hoje posso usar muletas”, conta.

Dayana Moraes Lopes, pivô do ICED (Balneário Camboriú/SC)

As maiores dificuldades muitas vezes aparecem provocadas pelos outros. “Tem muitos lugares em que vou que não são acessíveis. Às vezes não passo em uma porta por causa de 3 ou 4 centímetros”, fala Shirlei. Para a prática esportiva, a limitação acaba sendo o custo de transporte e do material para treino. Gévelyn trouxe oito bolas de seu clube para o treino da Seleção. A Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) cedeu camisetas para os treinamentos. No entanto, como o material tem o logo de um antigo patrocinador da Seleção convencional Adulta, muita gente pensa que as paratletas contam com incentivo financeiro. “Meu Deus, vou ter que editar todas as fotos”, brinca Gévelyn. O técnico Samuel diz que a Secretaria de Esportes do Ceará apoiou algumas atletas com passagens aéreas para que pudessem participar do Campeonato Brasileiro. “Vamos tentar de novo (esse apoio) para que elas possam vir ao Parapan”, conta o também técnico da Associação D'eficiência Superando Limites (Adesul).


Apesar das limitações, a modalidade segue em frente e busca mais organização e visibilidade. A Abrhacar procurou trazer o Campeonato Brasileiro e a fase de treinamento para o Centro Paralímpico Brasileiro, em São Paulo. A informatização para cadastro das equipes e atletas também vai trazer mais transparência às informações da modalidade em Cadeira de Rodas. “Estamos em conversas com a IHF (Federação Internacional de Handebol), por meio do professor Flávio Melo, de Alagoas, para que o HCR entre como demonstração nas Olimpíadas de 2024”, finaliza Gévelyn.

Seleção Brasileira Feminina na fase de treinamento no Centro Paralímpico em São Paulo (SP)

Convocadas:

Aline Martins de Sousa Lima (Adesul/CE)

Ana Kelvia Silva de Lima (Adesul/CE)

Claudia Maria Dutka (ICED/FMEBC/SC)

Cristiane Silva da Costa (ICED/FMEBC/SC)

Daniele de Carvalho (Atacar Toledo/PR)

Fabiane Ferreira da Silva (ICED/FMEBC/SC)

Franciele Aparecida Costa (Saúde Esporte/PR)

Laís Aguiar de Lima (Adesul/CE)

Maria Catarina A. Ribeiro (Adesul/CE)

Maria Olinda dos Santos (Atacar Toledo/PR)

Roberta Cristiane Krüger (Atacar Toledo/PR)

Shirlei Cátia Moraes Januário (Adesul/CE)

Suzana Cristina da Silva (ICED/FMEBC/SC)

Vanderleia Gimenes (Atacar Toledo/PR)


Comissão Técnica:

Gévelyn Almeida – Técnica (ICED/FMEBC/SC)

Samuel Macena – Técnico (Adesul/CE)

Evelin Eloisa – Auxiliar Técnica (Atacar Toledo/PR)

Décio Roberto Calegari – Coordenador (UMPM/Kings Maringá/PR)

Seleção Brasileira Feminina na fase de treinamento no Centro Paralímpico em São Paulo (SP)

GALERIA


  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram