Buscar
  • André Pereira

E se fosse com eles?



Olá amigos e amigas do handebol.

Aqui vai uma crítica ao desrespeito com aulas e professores de Educação Física Escolar e Treinos Desportivos na infância e na adolescência.


Alguns momentos nos fazem refletir e questionar não só o quão importantes são as aulas de educação física e esportes para a formação e bem estar da criança e do adolescente, mas também como são absurdas algumas ações que em pleno ano de 2018 ainda presenciamos, vindas de todos os lados: professores, coordenadores, diretores e até mesmo das famílias e dos próprios alunos.

É óbvia a importância e contribuição da educação física escolar para o desenvolvimento físico, motor, social, afetivo e cognitivo de um indivíduo. Há um número considerável de estudos científicos, livros, artigos, dissertações e teses comprovando tudo isso, inclusive em nossa língua pátria.

Na escola geralmente a Educação Física é a aula que as crianças e adolescentes mais gostam e aguardam na semana, porém justamente nestas aulas é que alguns atos de desrespeitos explícitos ou velados, mas ambos inaceitáveis, ainda acontecem com os professores e com a própria disciplina.

Compreendo de certa forma que o estigma cultural que herdamos das más práticas ainda nos perseguem, mas convenhamos, não podemos cair no lugar-comum e dizer que quase nada mudou. Existem professoras e professores fazendo trabalhos fantásticos Brasil afora, dignos de admiração! Mas mesmo assim parece que a postura e visão acerca da disciplina em muitas pessoas ainda estão muito longe de mudar.

É inadmissível respondermos por práticas que não concordamos, que não temos e não fazemos!

Vou colocar abaixo quatro situações teoricamente hipotéticas... Ok, não são hipotéticas: todas já aconteceram comigo.

Em uma bela tarde a professora do 1º ano do Ensino Fundamental I me comunica: “A aluna Fulana não irá para o mini-handebol, pois ainda não acabou a tarefa de matemática”. E lá ficava a fulana na sala de aula, em um dos únicos momentos de atividade física e aula fora da sala que ela tinha na semana. Todos os amigos e amigas iam brincar, jogar, aprender e ela, não.

Chega o professor da disciplina “X” na sala dos professores, coloca a mão no meu ombro e fala: “Professor, se eles não entregarem o trabalho da minha disciplina não irão para sua aula, assim eles vão aprender...”

A família da criança, pelo whatsapp, me avisa: “Professor, o Beltrano não vai ao treino, pois amanhã tem prova da matéria “Y” e ele precisa estudar”, como se o culpado de ele não ter aprendido ou não ter estudado a matéria até o presente momento, fosse a minha aula de 50 minutos.

A quarta história começa com um funcionário qualquer da escola, que chega na grade da quadra e fica olhando a aula do 8º ano do Ensino Fundamental II. Ele parou diante da aula e achei que ficou admirado que a aula era de Tênis! Sim, Tênis!

Os alunos e alunas fizeram durante duas aulas as raquetes com material reciclado, o professor adaptou a quadra, ensinou as técnicas e modos de se jogar e, finalmente, lá estavam os adolescentes na quadra, felizes em poder jogar um esporte não muito comum e presente nas aulas, felizes em estarem aprendendo e vivenciando situações novas e o professor lá, orgulhoso da sua aula ter dado certo!

Eis que então, o funcionário da escola brada para o professor: “Que bagunça, que desordem... Pra que isso...” Tudo isso, ao lado do professor, com ar de deboche e desaprovação.

Pois bem... Hoje, após quase 20 anos de chão de quadra e de sala, tenho certeza absoluta que a Educação Física é tão importante quanto qualquer outra disciplina na escola e sabendo o quanto nos esforçamos, estudamos e trabalhamos para dar nossas aulas é que chegou o momento de dar um basta definitivo neste tipo de situação.

Quando foi que as aulas e treinos viraram menos importantes do que... qualquer coisa???!!!

Parece que qualquer motivo é válido para faltar ou não ir a um treino ou aula de Educação Física!

Chegamos a um ponto crucial: ou valorizamos as nossas aulas, nossos treinos e nossa dedicação por proporcionar educação e desenvolvimento global com qualidade para todos ou esta visão totalmente equivocada por parte das pessoas ainda perdurará.

É fácil compreender esta indignação tendo um pouco de empatia e observando abaixo as seguintes provocações mediante as situações anteriormente citadas:

Então se a Fulana do primeiro exemplo não terminar o exercício do mini-handebol eu também posso avisar a professora que ela não irá para aula de matemática, por exemplo, até ela acertar e fazer tudo que tinha planejado, nem que para isto eu desrespeite a aula, o espaço e o trabalho de outro profissional?

Ou seja, minha aula é mais importante do que a outra? Qual foi o momento em que eu comecei a não me importar com o trabalho de outro professor?

Então no segundo exemplo, se meus alunos estiverem em um torneio escolar e eu julgar que eles precisam de mais treinos, posso chegar na sala dos professores, colocar a mão no ombro do colega de profissão e apenas comunicá-lo que vou tirar os alunos de sua aula, a disciplina “X”!?

Ora, é para que assim eles aprendam! Afinal, não estão entregando para mim o que combinamos nas aulas de Handebol! Então preciso de mais treino, mais volume de jogo e vou usar, já decidi, a aula de outro professor para isso!

Com isso conota-se que não me interessa o planejamento do outro professor, se ele preparou a aula, se ele fez faculdade, especialização, mestrado, doutorado ou qualquer outra coisa dessa. O que importa é que eles aprendam o seguinte: se não fizerem o que eu pedi, não vai ter a outra aula. E eu já comuniquei o outro professor...

No terceiro exemplo do “Professor, o Beltrano não vai ao treino, pois amanhã tem prova da matéria “Y”... Obviamente então, também já tenho a solução: em véspera de jogos, eu posso tirar o Beltrano das aulas de Português, Geografia, Matemática e qualquer outra que eu queira para dar meus treinos!

Somente aviso as famílias e os alunos que não é para ir para a aula e pronto!

O que importa é a minha aula, ou seja, para que ele tenha mais desempenho naquilo que quero, tiro o desempenho dele em diversas outras coisas, justamente por não me importar e não respeitar a aula do outro professor. Cada um com seus problemas, não é mesmo?

E no último exemplo, questiono: quando foi que todas as pessoas no País viraram doutoras em Educação Física? Quando foi que todos viraram doutores em medicina, direito ou todas as outras faculdades existentes?

O achismo tomou conta das pessoas. E lembrem: quem acha, não sabe.

Para se ter certeza do que se faz no mínimo o sujeito estudou muito, pesquisou muito, planejou muito e praticou muito pra chegar a um modelo ideal.

O funcionário da história questiona e critica a aula do professor, sem saber que ali, naquela “desordem e bagunça” havia uma série de objetivos, planejamentos, intenções e ações em prol da diversidade e pluralidade cultural/corporal dos alunos. Mal sabe o funcionário “crítico de aulas” que para aquilo acontecer o professor uniu um sem-fim de disciplinas, metodologias, abordagens, conhecimentos e habilidades, pois em um País onde, em muitos lugares aluno manda em aula de Educação Física (!), dar uma aula de Tênis para os adolescentes é quase um feito!

Ao ler estas críticas e colocações, percebem a dimensão destes absurdos? Percebem que nada justifica? Percebem o desprezo que estes exemplos exercem sobre nossas aulas, nossa formação, nossa profissão e até mesmo do quanto nos desprezam enquanto pessoas, pois por muitas vezes nossa profissão é o que nos define enquanto cidadãos.

Percebem o quão incômodas são estas colocações quando nos colocamos no lugar do outro?

Todos nós sabemos o tempo que grande parte das crianças e adolescentes ficam atualmente nas redes sociais, smartphones, games, apps etc. Será que é justamente a Educação Física e o treino do esporte que estão atrapalhando o restante? Será que é essa 1 hora de aula ou de treino que realmente atrapalha todo um processo educacional? Será que tirá-los das únicas horas de atividade física da semana é o mais correto a se fazer e realmente vai fazê-los mudar radicalmente notas, comportamentos e atitudes???

Será que o professor de Educação Física não pode ajudar?

Será que o planejamento da agenda destas crianças e adolescentes é o correto? Será que não é necessária uma mudança de rotina e de hábitos para que elas consigam fazer as atividades da escola, treinar, ficar no smartphone (equivalente ao antigo ver TV) e ainda ficar com a família e brincar?

Será que todos os professores de todas as licenciaturas realmente ainda não sabem o valor da Educação Física? Será que a todo instante, todos devem interferir e criticar seu trabalho sem um mínimo de ética ou alteridade?

Todas estas perguntas, obviamente, são retóricas.

O que não podemos mais admitir é o desrespeito com quem tanto tem a oferecer para nossas crianças e adolescentes, nas escolas, nos clubes etc.

Um basta para as práticas retrógradas e o descaso com a Educação Física em nosso país.


Convidamos você também a participar. Deixe aqui seu comentário, envie sua sugestão de assunto e entrevistas, elogios ou críticas para o HandBlog Tchê Esportes.

PERFIL DO AUTOR

Prof. Ms. Diego Melo de Abreu é docente no curso superior de Educação Física da Universidade Metodista de São Paulo, docente no curso superior de Pedagogia da FAINAM, diretor do departamento de Mini-Handebol da Federação Paulista de Handebol e autor do livro “Teoria e Prática do Mini-Handebol”.

SOBRE A PÁGINA

Vai falar sobre o mini-handebol e a importância de valorizar a iniciação esportiva, além de dar dicas sobre a melhor maneira de introduzir o esporte para as crianças.

Referências:

ABREU, Diego Melo de; BERGAMASCHI, Milton Geovani. Teoria e Prática do Mini-Handebol. Jundiaí, Paco Editorial, 2016.


VULETA, Dinko et al. The Effects of Mini-Handball and Physical Education Classes on Motor Abilities of Children of Early School Age. Croatian Journal of Education. Vol.15; Ed. 4, 2013.

#blog #noticias #handblog #minihandebol

5 visualizações
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube
  • Instagram