• Andréa Rodrigues

Eficácia do 7x6 na formação dos jogadores de handebol

Atualizado: 7 de Mar de 2019



Muito se discute no mundo sobre a aplicabilidade do jogo de 7x6 nas categorias de base do handebol. Preparação visando a realidade do jogo futuro, estímulo à tomada de decisão ou especialização precoce e abandono da criatividade?


As recentes regras introduzidas em nossa modalidade carecem de estudos mais complexos e principalmente tempo hábil para analisarmos os reais resultados de sua efetivação, o que acaba por gerar diferentes posicionamentos ao redor do mundo no que concerne à utilização da opção tática 7x6. No alto rendimento o 7x6 vem sendo amplamente utilizado com resultados efetivos tanto como estratégia dentro do jogo quanto em situações periclitantes na busca pelo placar.

Mas e nas categorias de base, como devemos proceder? Devemos permitir ou não? A partir de qual faixa etária?

No Brasil em 2017 a Confederação Brasileira e a Federação Paulista de Handebol aprovaram a utilização do 7x6 a partir da categoria infantil com algumas restrições pela CBHb, essencialmente nos sets onde a marcação individual será considerada obrigatória.


O auxiliar técnico da seleção brasileira adulta e principal vencedor dos principais torneios de base do País Cristiano Rocha expressou sua opinião: “O conteúdo não será prioritário nos meus treinamentos diários do clube na iniciação, por outro lado não acredito que a proibição da regra seja o caminho, sendo a utilização do recurso pessoal de cada treinador. Na categoria infantil os elementos táticos coletivos têm relevância pequena dentro do nosso trabalho”.


Campeão Paulista Infantil Masculino em 2016, o técnico Guilherme Borin, da Hebraica, discorreu sobre o tema: “Sou conceitualmente contra a ocorrência do sétimo jogador. As crianças nas faixas etárias menores ainda não estão preparadas para esse tipo de ação. Corrigimos primordialmente nas categorias mirim e infantil questões relacionadas ao entendimento do jogo, orientação de quadra, ocupações de espaço e trajetórias. Em contrapartida, acredito que se a tendência mundial da modalidade for a incessante inclusão dessa estratégia deveremos, a médio prazo, preparar nossos atletas nesse sentido, por mais que isso tenha como desdobramento um déficit técnico considerável”.


A tradicional escola dinamarquesa de handebol campeã olímpica no Rio ano passado caminha em um posicionamento distinto do handebol tupiniquim, permitindo apenas a utilização do 7/6 na categoria adulta. “Pensando no desenvolvimento dos talentos acreditamos que os jogadores necessitam aprender a realizar com qualidade ações de um contra um, enfrentar defesas de profundidade e atacar com constantes trocas de posições, o que se torna quase impossível nesse contexto. Além de naturalmente aprisionarmos os pontas no fundo da quadra e não possibilitarmos aos pivôs condições hábeis para mudanças de posições, tornando o jogo essencialmente chato para esses jogadores. Acreditamos ser um retrocesso para o jogo“, cravou Claus Bjarke Hansen, responsável pelo desenvolvimento de talentos masculinos da Dinamarca e técnico da seleção júnior masculina.


O handebol português pondera entre esses dois caminhos, a possibilidade do recurso 7x6 não é totalmente proibida, começando a ser utilizada na categoria juvenil. “Creio que os treinadores já perceberam que é adequado utilizar para tentar recuperar um resultado desfavorável ou em momentos pontuais e não como opção a usar todo o jogo. Acredito que a partir de juvenis a regra pode ser utilizada. São atletas que entram numa fase de especialização”, declarou Paulo Pereira, técnico da seleção adulta masculina portuguesa.


Com o legado dos jogos olímpicos de 2012, em Londres, e o recente aumento de aporte financeiro oriundo de fundos governamentais, o handebol britânico continua dando passos largos para a massificação da modalidade e sua consequente evolução. Conversamos com o treinador português Ricardo Vasconcellos, responsável pelo desenvolvimento do handebol nesta região e treinador da seleção masculina adulta.

Ricardo Vasconcellos definiu: “No que se refere aos escalões de formação, a utilização do 7/6 vai influenciar negativamente a capacidade de tomada de decisão dos jovens atletas e tornar o jogo menos divertido, uma vez que facilita o ataque e desculpa o erro defensivo. Para além disso a tendência será pela utilização de defesas mais compactas o que, em meu entender, prejudica a tomada de decisão defensiva“. A possibilidade da utilização do 7/6 nessa região corrobora com o pensamento português, tendo sua aplicabilidade a partir dos juvenis.

Grande influência do handebol brasileiro, principalmente pelas estupendas duas passagens de Jordi Ribera no comando do desenvolvimento do nosso esporte, a escola espanhola não permite a utilização do 7/6 nas categorias menores de acordo com a regra nova, permitindo o implemento do goleiro-linha com as normas antigas e a utilização do colete.


Daniel Gordo Rios, ex-treinador do Ademar de Leon em duas Champions League e grande contratação para a temporada 2017-2018 do Balonmano Nava, emitiu seu ponto de vista: “É um conteúdo muito especifico, onde os componentes táticos e estratégicos estão acima dos técnicos, o que para o handebol espanhol não tem cabimento. Na Espanha, dentro do processo de formação se predomina a técnica e tática individual e os mecanismos de decisão. Por fim, constato que a utilização do 7/6 nas categorias menores pelos treinadores visa o resultado, objetivo totalmente inadequado para o processo de formação‘’.

Acredito ser inadequada a propositura da estratégia 7/6 nas categorias de base do handebol. Trata-se de uma estratégia de um grau de complexidade exagerado para atletas em formação. Normalmente acompanhamos uma grande dificuldade das equipes na execução de ações simples de cooperação com o pivô, jogo de 2/2. Acrescentar mais um jogador na mesma dimensão espacial causará confusão e frustração aos jovens atletas. Outra grande preocupação em relação à execução da tática em destaque seria a consequente utilização do sistema 6:0 na maioria das equipes. Acho imprescindível nas categorias de bases o emprego de sistemas de duas linhas. As defesas de maior profundidade acabarão por formar atletas melhores e mais inteligentes tanto no âmbito defensivo quanto ofensivo.

Das modalidades coletivas mais democráticas existentes o handebol tende a permitir sua prática por uma vasta gama de biótipos, a inclusão sistemática da utilização do 7/6 na base levará aos nossos clubes e treinadores, normalmente vinculados a cultura futebolística brasileira de resultados, a optar por defesas fechadas e à consequente escolha por jogadores de grande estatura, tornando assim nosso processo de captação de talentos prejudicado e menos eficiente.

A discussão está lançada ... qual é a sua opinião ???

Saudações Handebolistas!


Convidamos você também a participar. Deixe aqui seu comentário, envie sua sugestão de assunto e entrevistas, elogios ou críticas para o HandBlog Tchê Esportes.

PERFIL DO AUTOR

Danilo Gagliardi Jr Paulista, o ex-goleiro jogou entre outras equipes na A Hebraica, em São Paulo. Primeiro brasileiro a ser técnico profissional na Europa , teve sua formação como treinador realizada internacionalmente na Academia de Handebol de Aarhus, Dinamarca. Disputou a EHF Cup em 2016 , além de dois panamericanos e dois campeonatos mundiais como integrante da comissão técnica das seleções brasileiras de base.

SOBRE A PÁGINA

O handebol no cenário internacional, competições, comentários sobre atletas, desempenhos e informações em geral.

#blog #noticias #handblog #handebolpelomundo

46 visualizações